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segunda-feira, 28 de abril de 2014

A METADE QUE NÓS ESCONDEMOS

CrônicA DA SEMANA

A METADE QUE NÓS ESCONDEMOS


Burke Ryan, no filme “O amor acontece”, escreve um livro sobre perda. Ele que perdeu sua mulher num acidente fatal, decide o que fazer com aquela dor, um livro, claro, uma forma de transmitir ao mundo o sofrimento. (Acho que ele entendeu bem sobre como fazer um proveito da dor). Assim como a alegria nós festejamos, a tristeza também merece reverência. Então, seu livro vira best-seller, onde se torna a autoajuda da sociedade. Mas ele, aos poucos vai percebendo que a metade em público está intacta: superado. E a metade que o esconde: ainda não superou.

A metade que nos esconde ela nunca está a olho nu. Ela nunca está visível para nós mesmos. Essa metade é um labirinto, é a imensidão que não enxergamos. Essa metade que escondemos, é a mesma que camufla a gente. É aquela que dizemos: sim estamos felizes, só que na verdade, não. É aquela que diz ao mundo: eu superei. Mas lá dentro há alguém vulnerável. É aquela que diz: eu sou forte. Mas lá dentro é apenas alguém que está indefeso.
A metade que nos esconde, é aquela vontade que reprimimos. É a verdade que não temos coragem de dizer. Essa metade que sempre ajuda, e às vezes precisa ser ajudado. A metade que nos esconde ela não dá mole, é aquela que quer traquinagem. É aquela que quer brincar de esconde-esconde, e mal sabe que já está escondido. A metade que nos esconde é a mesma a do sofrimento, do lamento, aquela que não sabe dar explicações de tão difícil de ver sua cara. A metade que nos esconde é o sofrimento que pensamos e nunca agimos.
Essa metade é o abismo iminente. Essa metade é o precipício da nossa existência. É a esperança viva e a expectativa zero. É o choro do que ainda não aconteceu, é a antecipação do sofrimento. Essa metade não tem vocação para o comportado. Essa metade é aquela coisa que não entendemos, apenas sentimos. Essa metade é o medo, os traumas de infância. Essas são as metades que nunca se estruturam por inteiro tornando-se um só.
A metade que nos esconde é aquela que mente deliberadamente para si mesma. Essa metade é a mesma que cria respostas que não condizem com o caráter. É a que cria personagens para se defender das curiosidades alheias. São as fantasias que não expomos para o mundo. São os questionamentos da própria existência. A metade que nos esconde, é a caixa de surpresa, nunca se sabe o que há lá dentro.
Enquanto isso a outra, aquela metade exposta ao mundo, sempre dizendo: “está tudo bem. Logo passa. O tempo cura”. E assim vai acontecendo às brigas entre uma metade e a outra. Até que um dia acordamos asfixiado, com uma angustia inexplicável. Uma dor que não se sabe de onde nasce.
A metade interna tem a boca, a voz. A metade externa tem a perspicácia que sempre vai onde nunca ninguém foi. Essas duas metades sempre estão em guerra. Mas chega uma hora em que é preciso olhar de frente para as duas: o espelho do reflexo e o espelho da alma. Encarar e fazer as pazes. E para fazer isso, existe um processo que cada um tem o seu. Trazer a felicidade é um estado de espirito do nosso inconsciente para o nosso consciente. Mas fazer essas duas felizes para sempre. Impossível. Uma hora essas duas metades voltam a brigar de novo. Fazendo todo o processo novamente. Essas são as duas metades, que fazem um inteiro de nós.


Leandro Salgentelli – crônica 

terça-feira, 15 de abril de 2014

DESÂNIMO EXISTENCIAL

CRÔNICA DA SEMANA


DESÂNIMO EXISTENCIAL

Que às ferramentas como Facebook, Twitter, nos expõe cada vez mais, isso não é novidade para ninguém. Que viramos escravos da tecnologia, que não existe mais olho no olho, nem é preciso falar. E assim, vai crescendo uma sociedade cada vez mais individualista e que pouco pensa.
Recentemente, acompanhei um caso de uma escritora que parou de publicar texto no seu blog porque foi ofendida pelo seu leitor. A palavra correta nem é ofendida, é agredida. Eu sinto pena, sinto desesperança, repulsa, fico muito triste com esse tipo de comportamento que vem de pessoas que aparentemente parecem ser racionais, mas chego à conclusão que não são.
Com uma ferramenta chamada anonimato sai por aí espalhando sua miséria existencial, o espirito de porco que nasce na alma, atacando as pessoas como se fosse a coisa mais linda a ser exibida. Trazendo à tona sua infelicidade como se o resto do mundo tivesse culpa. É de perder a esperança de um futuro onde as diferenças fossem aceitas, onde as opiniões fossem compreendidas sem gerar agressão.
Dias desses me perguntaram se quando eu terminar a graduação vou querer trabalhar como Willian Bonner. Eu disse que não. Já me exponho demais escrevendo perdendo a minha privacidade. E que, quanta coisa já ouvi por causa das minhas escritas. Quanto preconceito relevei só por causa de um pensamento, uma reflexão. O que muita gente não entende é que escritor não é o dono da verdade, só colocamos pra fora o que muitas vezes nós mesmos não entendemos ou compreendemos, não faz diferença. Apenas para organizar os pensamentos e muitos deles não se organizam.
É, Lena, você não está sozinha.
Já dizia Virginia Woof: a vida é como um sonho, acordar é que nos mata. São esses tipos de coisa que vão ao poucos nos matando. À desigualdade, à corrupção, os desaforos, às injustiças. E cada dia que se passa vai aumentando ainda mais a nossa casa de decepções. Fazer o quê? Faz parte, ora. Só precisamos tomar cuidado para que essa torre que construímos ao longo do tempo não venha ao chão por pura decepção.
Sempre acreditei que discussão gerava solução (meu lado otimista). Mas hoje cheguei à conclusão que não. Existem discussões que não vão levar em nada, nem ao menos uma reflexão. Simplesmente porque a unanimidade não foi ensinada a pensar, a se colocar no lugar do outro, a aceitar o outro como é. Até mesmo dentro da nossa própria casa, um lugar onde não somos obrigados a ouvir o que não queremos, mas ouvimos.
Quando o mundo vai começar a perceber que entre uma pessoa e outra, há um abismo enorme? Que não podemos criar uma ponte e atravessar o precipício e jogar pedra como se fosse algo normal? Quando o mundo vai perceber que quanto mais maldade lança, a vida e seus desdobramentos trazem de volta? Quando?
Quando criança, almeja a vida adulta, achava que era felicidade total, ingenuidade minha, eu sei. Quando adolescente, questionava minha mãe o “porquê” da desigualdade, e sem preliminares ela respondia: Você não queria o mundo adulto, seja bem-vindo. Oi, qual é o caminho para porta de saída? É tanta crueldade, tanta ignorância, tanta gente que ama a mediocridade, que a solução mais adequada é sair de cena. E assim, compreendemos de onde nasce o nosso desânimo existencial. Te compreendo, Elenita.
Por Leandro Salgentelli

terça-feira, 8 de abril de 2014

Crônica da semana

Crônica da semana

PERSONAGENS


A primeira pessoa do singular não existe quando estamos em público. Estava lendo algumas coisas sobre os estudos de Freud e me veio à cabeça essa frase.  O que acho muito interessante, porque acontece com todo mundo.
Você está em uma festa e vê uma mulher beijando um cara na pista da balada e, por coincidência, ela é a mesma mulher inteligentíssima de onde você estuda. Você que conversa com um homem puramente formal no trabalho, e o encontra na rua fumado, de shorts, todo tatuado. Você fica surpreendida.
Não há nenhum problema nisso. Mas o que quero dizer é que temos mais personagens em nós do que a primeira pessoa do singular. Isso não significa que somos falsos, hipócritas. Significa que é apenas uma interpretação. Um exemplo bem claro disso é: quando contamos algo a alguém, dizemos de uma forma, quando for falar sobre o mesmo assunto para outra pessoa, vai ser de forma diferente.
Os livros, por exemplos, quem diz que livros biógrafos são reais está mentindo. Nenhum livro é puramente real, mesmo que todos os sentimentos expostos ali possam parecer que são. Primeiro porque ninguém fala como escreve, quando falo o receptor entende o que eu digo, quando escrevemos temos que acompanhar a coerência, à gramatica, à linguística, esse diálogo vai ser de outra forma. E segundo, porque o cenário é outro, a forma de transmitir, a forma como enfatizar o leitor entrar na cena, é completamente diferente.
Muitas vezes julgamos as pessoas por isso, por essa transitoriedade de personagens. Uma hora sorri, outrora fecha a cara. Uma hora conversa, outrora silencia. Poxa, quanta bipolaridade, não? É apenas a contradição que todos possuem.
Outro dia conversando com uma amiga ela olha pra e diz: nossa, como você é metido. É obvio que todo mundo tem um pouco de egocentrismo, mas não levo muito a serio quando me apontam essas coisas porque eu sei que são meus personagens atuando. (Vale lembrar que os personagens eles são características das nossas preferências, por isso que não somos falsos). E no mesmo dia, mas em outro lugar, com outra pessoa. Perguntaram-me o que eu tinha que estava triste. Respondi que não estava acontecendo nada, e por não acontecer nada, já era um motivo. E viva a contradição.
Meu irmão, outro exemplo, vive dizendo que me contradigo muito. E eu fico pensando, qual é a relevância de uma certeza? Se tudo é provisório, imprevisto e transitório. Onde mora a certeza? Na morte, porque essa é a única que temos. O resto é uma hipótese.
O ser humano, o pensamento, ele sofre alterações diariamente, a inteligência possui camadas, quando achamos que sabemos de algo, logo descobrimos que não sabemos de nada. Por isso, o conhecimento tem uma infinidade que não acaba. O maior inteligente é aquele que sabe que nunca saberá de nada, porque tudo muda; tudo é imprevisto e provisório.
Dizem que os estereótipos não fazem mais parte da vida contemporânea. Mas me parece que isso continuará sendo eterno. Eu que não rotulo nada, nem a mim mesmo, e vejo aí um grande perigo. Mas há um perigo ainda maior, são aqueles que estão aprisionados nas convenções e tornou-se personagem definitivo.
O bom comportamento é personagem. O singelo é um personagem. O pacato é um personagem. Quase tudo tem personagem e um palco. Mas anda pensando em fechar a cortina, sair do palco e das cenas? E que ninguém me ouça. Porque a vantagem da solidão é essa: lá eu me encontro.

Crônica – Leandro Salgentelli 

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